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Espaço Amigos da Literatura: "Assim é a Vida" - Portal Vany Musik


Por: João Angelino
Revisão: Estevão Ngundia 

O meu pai abandonou minha mãe quando eu tinha 6 meses de idade. Minha mãe, com muito amor, carinho e paciência criou-me no sofrimento da guerra de 92, lembro-me que corríamos de um lado para o outro fugindo os homens da extrema direita. 

Havia dias que minha mãe não comia, ficava fraca, sem forças, desprovida de vontade para viver, mas ainda assim carregava-me na costa.

Alguns anos mais tarde, a minha mãe estava fisicamente doente, no entanto, mandou -me a viver com sua irmã. O objectivo era que eu fosse estudar lá.
 
Aquela senhora que na verdade é minha tia, tinha recursos para colocar os meus primos todos na escola, excepto eu. Ali não doía. Aquilo rompia as minhas esperanças de ser alguém na sociedade.

Quando o assunto era cozinhar, lavar, vender hortaliças na nossa bancada na rua, acarretar água, entre outros serviços, era eu o candidato ao cargo. Estevi farto, não por ser o candidato digno de fazer tudo aquilo, mas por não me derem a chance de ir a escola.
Então comecei a lamentar.
Onde estão os meus pais.
Quem é o meu pai?
E porquê que ele nunca vem ver-me?
Lixa-se a resposta.

Eu precisava pirar-me daquela família, senão teria rumo inseguro nem certo. 
Certa manhã, no silêncio do frio, levantei calmamente, sem barulhos. Abri o portão e comecei a correr, mas a bom correr, para que nunca mais fosse avistado. Saí apenas com as roupas no corpo.

Corri com todas as forças que disponha. Cheguei em um sítio aonde só havia meninos a lavarem carros, motas, uns fumavam, outros bebiam. Pausei um instante.
Procurei ver o mais letrado para manter um papo.
-Oi amigo!

-Qual é o dikulo papoite!
(hein caraca, meu subconsciente alertou-me a manter a calma, mas como ? Estou na rua)
-Como vocês conseguem?
O indivíduo que achei mais letrado, olhou -me bem, mas a bom olhar e sei lá porquê, me ignorou.

Entendi que era perigoso permanecer ali. Então decidi avançar. 
Caminhei desnorteadamente, sem rumo, sem orientação, sem comida, sem água, sem esperança, sem motivação sem objectivo.

O estômago não perdoa, comecei a sentir dores, muita dor no estômago, era fome. Agora onde comer? O meu juízo ficou verde, era preciso pensar a multiplicar para se satisfazer.
Quem sem forças, sem vontade, não tinha nem forças para caminhar. 
Assim deitado, apreciando uma formiga passar vi ela a apanhar uma partícula de um cisco de pão e foi levar, sei lá aonde, mas levou.

Parado eu não conseguiria absolutamente nada, consegui motivação, então arregacei as mangas. Comecei a caminhar. Vi um jovem a colocar alguns rescaldos alimentícios no contentor. Escondi-me numa parede ao lado, assim que ele saia eu ia para lá em passos lentos, como se tivesse unicamente a passar. Já no contentor, coloquei a mão para tirar alguma coisa que se coma, e atrás de mim ouvi barulhos de mulheres. Recuei, fingi que não queria absurdamente nada. Uma das moças olhou -me pesarosamente. Fiquei extremamente envergonhado e fui novamente sentar. Pensei em voltar para a casa da minha suposta tia, mas fiz uma retrospectiva de tudo que vivi lá, um nem em sonhos em voltaria. Mas eu precisava fazer alguma coisa para sobreviver. Então, continue a pensar. Lembrei -me dos jovens que lavavam carros. Então, está é a missão, lavar carros.
Mas o meu pai, onde será que está?
Ele se importa mesmo?
Pensa mesmo em mim?
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