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Espaço Amigos da Literatura: "Excesso de sofrimento" Por João Angelino - Portal Vany Musik

Por: Estevão Ngundia
Texto: João Angelino  

Lembro-me apenas de ver a minha mãe aos cinco anos de idade, ela vendia fuba na praça. Nós íamos à praça todos os santos dias, depois da lavra. Minha mãe era muito generosa, por isso, diferente das outras, não fazia cabetula.

Havia uma senhora que comprava sempre fuba na bancada da minha mãe, o mínimo dos kilos que comprava eram cinco kilos.

Lembro que eu estava saindo com aquela tia, minha mãe olhava para mim de forma muitíssimo exótico, mas ao que parecia ela havia concedido permissão.
Morava na cidade capital de Angola com aquela tia, ela não me quis colocar na escolar. 
Mandava -me vestir roupas estranhas, ser simpática com os homens que apareciam em casa e pedir-lhes sempre dinheiro. Por cada sei lá o quê que eu fazia, eles tinham que dar-me obrigatoriamente três mil e quinhentos kwanzas. Lembro-me que os senhores subiam em cima de mim, mexiam-se em cima de mim, eu sentia dores esquisitos debaixo das pernas e sempre jorrava sangue.

Aos 23 anos de idade, no kikolo, eu descobri que estava sendo usada para fins lucrativos que eu nem sequer via. 

Resolvi fugir dali, tentar a vida noutro sítio, longe dali. Mesmo sem ter ido à escola, sendo analfabeta, como chamais, eu queria igualmente ter uma vida normal. 
Ter um marido, filhos, uma casa, um lar, ser amada, apreciada, presada e querida.
Conheci o Marcos, jovem simpático, humilde e trabalhador. Professor de língua portuguesa. Fascinou-se comigo desde a primeira vez que o contei minha história de vida. Garantiu fazer-me feliz todos os dias de sua vida, ele fazia-me sorrir, lagrimejar de alegria, de paixão e de amor. Fizemos dois filhos. Dois bons garotos, simpáticos, humildes, carinhosos e estudiosos.

Um, o Osvaldo, foi atropelado ontem, na via expresa que liga Cacuaco ao Benfica, ele só tinha 14 aninhos, não merecia isso.
A outra, minha bebezinha do peito, foi estuprada por um mais velho sem miolos, rasgou os canais vaginais da menina até a morte.
O meu marido, o Marcos, acabou por falecer por desgosto por causa de tudo que tem acontecido. É muito sofrimento junto, até o corpo pede rapidamente a morte para um eminente descanso.

Hoje, cheguei aqui na Huambo, para reencontrar-me com a minha mãe. Assim vamos a Rádio para informar as pessoas e eu acho, amigo da literatura, que deves partilhar este texto para ajudares não só a mim, mas a milhares de gentes na minha situação.
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