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Espaço Amigos da Literatura: "O peso da culpa" Por João Angelino - Portal Vany Musik


Por: Estevão Ngundia 
Texto: João Angelino 

-Você é uma assassina!
-Não sou mãe!
-Você é sim! Sua assassina!
-Pára mãe, não sou assassina 
A mãe olhou atentamente para a filha, que estava trajada de vestes de presidiária, recolhida a um canto da sala de visita na prisão do Kambiote.
-Que espécie de mãe é você?
-Eu que pergunto isso. Porque você matou o Artur, hein? O Artur foi como um pai para você. Ele não era mecânico mas sabia montar-me, ele não era big mas sabia levantar-me na cama, nem sequer era piloto, mas sabia conduzir as minhas emoções. Você tirou-o de mim, porquê, porquê?
Estava trêmula de choros, ajoelhou -se como quem tivesse a orar.
-Você é uma assassina. Artur foi um pai para você. Ele não merecia isso.
-Mãe, vira-te aqui.
-Não, afasta-te lá, sua assassina.
-Não sou assassina, não fui eu mãe. Porquê você não me ouve sequer?
A mãe virou -se calmamente como quem não tivesse ouvido bem e perguntou.
- O que você disse?
-Eu não sou assassina mãe, não fui eu quem matou o Artur. Ele mãe... Ele abusava -me sexualmente, ele estuprou-me de todas as formas , ele, ele mãe...
A filha entrou em trabalhos de choros lacintentes. O semblante, as forças e a coragem dominaram a mãe e ela olhou para a filha e perguntou:
- Uffa! Porquê você não me disse isso?
-A senhora só queria saber de negócios, carros, viagens, roupas. Quando eu quisesse falar consigo, a senhora não estava nem aí para ouvir -me. Você não queria saber dos meus sentimentos, nem perguntavas sequer porquê eu me isolava, disso nunca querias saber. Na sua vida, sempre estevi em últimos planos, você era mais amiga do seu telemóvel do que de mim. Você amava seus bens materiais e de mim, apenas gostavas.
-Filha!
Tentendo aproximar-se.
-Não, permaneça aí mesmo. Vida não deve ser só viagens, estudos, casa, imóveis. A vida é também dar total atenção aos filhos, entender seus medos , apoiar , dar a mão e mostrar amor .
-Pára de me torturar filha. Mesmo assim, você não tinha razões para matar o teu padrasto, nem para tirar a vida de um insecto.
-Não fui eu. Naquele dia, lembro -me como se fosse agora, o Artur chegou embriagado em casa, percebeu que não havia mais ninguém em casa, percebeu que estávamos só, eu estava vendo TV na sala. Ele aproximou-se e começou a esforçar-me a fazer relação sexual, como das outras muitas vezes, ele tentava esforçar -me e gritei fortemente. E aí, chegou o Bruno.
-O Bruno, o teu namorado ?
-É isso mesmo, mãe. O Bruno matou o Artur.
A mãe levou as mãos até a boca, depois levou -os até a cabeça, virou-se para o outro lado e disse:
- Filha, e tu não disseste antes porquê? Esperaste mesmo eu colocar -te na cadeia para desvendar este segredo?
-Mãe, você nunca me ouve, aliás, nunca me ouviste. Nunca se importaste com os meus sentimentos. Nunca tiras tempo para mim, para falar comigo, me abraçar, nunca, só queres saber de si, de suas viagens, roupas, formação, dinheiro...
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