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Espaço Amigos da Literatura: "Algo morreu nele" Por João Angelino - Portal Vany Musik

Por: João Angelino
Revisão: Portal Vany Musik

1.
Desço do carro. Expectante. Ontem à noite, quando falamos, a voz dele ao telefone reacendeu memórias antigas. Os dias felizes que vivemos. O vento faz bailar as folhas das árvores. E o som, oferece a vaga impressão de que alguém está soprando um instrumento musical. O autocarro chega, em fim. Ele desce. Descubro-o no meio dos passageiros. Ele ergue o olhar. Como uma mosca perdida numa catedral. E só depois me vê, de pé, do outro lado do passeio.
2.
O sorriso dele. Mudou pouco. Mas estou decepcionada. Ao mesmo tempo, feliz. Queria vê-lo uma única vez. Dez anos após a separação. Casei-me. Me separei. Voltei a casar. Paris, Roma. Dubai. Istambul. Fiz o mestrado e mais uma licenciatura. Conheci lugares que sonhei na juventude. Contudo,jamais cheguei a ser feliz. Vivi sempre com a sensação ingrata. Assassina. Dolorosa. De que de alguma forma, minha vida e coração, e felicidade, e eu própria, tudo isso ficou no passado.
3.
Voltei ao país. Liguei para ele. Rezei para que o número fosse o mesmo. Movicel. Teclei. Ansiosa. Quero vê-lo. Nem que seja pela última vez. Nem que seja para confirmar se a presença dele ainda me humedece os trapos miúdos. Se o rosto dele continua de anjo. Quero chegar perto dele. Sentir o cheiro do suor dele. Olhá-lo nos olhos. Uma única vez. Vê-lo sorrir. Ouví-lo falar. O seu sotaque. Anasalado. A construção das ideias. Enfim, quero libertar-me dele. Só voltando a vê-lo, poderei eventualmente partir. Livre. Ou então, ficar. Para sempre.
4.
Pelo telefone, pude sentir a ansiedade dele. E adivinhar sem muita dificuldade. Ele afinal ainda me ama. E muito. E quer muito me ver. Vesti-me de forma simples. Vestido branco às florinhas vermelhas. Nada de jóias. Nada de espalhafatos. Nada de lantejoulas. As primeiras impressões não dizem tudo. Mas valem muito. O cabelo apanhado num rabo-de-cavalo. Ele atravessa a cortina de passageiros. Casaco de napa preto. Calças jeans. Azuis. Ténis. Reebok.


5.
“Oh, Rossana, como estás, meu Deus!”
O espanto dele é sincero. Mas…estou decepcionada. E feliz ao mesmo tempo. Liberta. Já não é o homem que era. Algo nele morreu. Para sempre. Ou serei eu que amadureci? Ou será o tempo que nos apodreceu? Só sei que agora sinto-me livre. Livre para ir embora de vez. Ele fala. Dos nossos tempos na universidade. Do professor de matemática. Da vez que apanhamos chuva, do ISCED ao bairro Minhota. E toda tese ficou ensopada. Levada pela água.

6.
Mas eu, quase já não o oiço. E agradeço por mais este encontro. Se não voltasse a vê-lo continuaria em mim a angústia. A sensação de ter perdido algo. Que ficou no passado. Algo que me pertence. Sem que eu o possua. Algo que é meu. Sem que eu o tenha. Algo do qual faço parte. Mas que me deixa partida. Algo que comigo faz conjunto. Mas não está junto. Algo que me deixa ir. Mas ao mesmo tempo me prende. No passado. No tempo que não volta mais.

7.
“Luís Paulo, obrigado. Muito obrigado, querido. Serás para sempre o meu amor, mas agora preciso mesmo de partir!”
“Mas Rossana, mal acabamos de…”
“Luís, obrigado. Obrigado mesmo. Por teres vindo. Por me teres salvo. Não sabes o quanto. Mas como eu sempre dizia, o emprego do tempo é passar. E, pelos vistos… ele passou muito. E acabou por levar o que me prendia em ti. Definitivamente…já não somos os mesmos um para o outro.”
“Mas eu continuo a amar-te. Agora que te vi, sinto-o a dobrar, Rossana!”
“Ah, como lamento, Luís…eu sinto o contrário…sejamos amigos!”

8.
Fecho a porta do carro. Rodo a chave na ignição. Enquanto Peugeot 406 desliza, ainda baixo o vidro. Outra vez. Aceno para ele a sorrir. Molho os dedos da mão nos meus lábios. E assopro um beijo. Pelos retrovisores, vejo-o chorar copiosamente. Espero que a vida lhe arranje alguém melhor que eu.
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