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História e requisitos para visitar a Ombala Ndala Kandumbu - Huambo - Portal Vany Musik

POR: JOÃO SICATO KANDJO

Resumo: Este trabalho apresenta uma investigação prática que tivemos a oportunidade de fazer na Ombala Kandumbu para darmos um contributo prático na História da nossa Província através do reinado dos seus reis, nomeadamente, Nondolo, Ndala Kandumbu, Jaime Santos (colaborador dos brancos sem poder), Kacikwalula, Yulembi e Semente. Tal como aconteceu com os demais, este reino também conheceu a invasão e a ocupação portuguesa durante o século XX. Aquando da penetração dos portugueses os espiões do rei notaram uma movimentação de algumas grandes carroças a passar próximo da ombala, 1ª, 2ª e a terceira vez o rei decide mandar as tropas para apanhá-los com os seus bens, dai só foi possível prender a mulher e quatro bois e o homem escapou, essa senhora foi mantida em cativeiro escuro durante um tempo. Isto revela a resistência que o rei manifestou para que o seu reino não fosse ocupado.
PALAVRAS-CHAVE: Reino, Kandumbu, organização, antes e depois da colonização.
ABSTRACT: In this work, we are going to present a practical investigation which we didin Kandumbukingdom and we gave a practical contribution to the History of our province through the governance of his six (6) kingdoms namely; Nondolo, NdalaKandumbu, Jaime Santos (coworkers of the banks without power), Kacikwalula, Yulembi and Semente. As it happened with others, this kingdom also knew the Portuguese invasion and corruption during the 20th century. As for the penetration  of the Portuguese, the spy of the king noticed the movement of some big cart passing near the kingdom (ombala) first, secondand the third time the king decided to send soldiers (troop) to arrest them together with their belongs. From there, it was only possible to arrest the woman and four cows, but the man escaped; this woman was mistreated in dark carves for a period of time. This reveals the resistance that the king showed for his kingdom not to be occupied.
KEY-WORDS: Kingdom, Kandumbu, organization, before and after colonization.

1.      Introdução


A visita a este monumento merece a atenção das autoridades locais e dos investigadores, dentre os quais se pode destacar os historiadores, antropólogos, sociólogos, arqueólogos e outros, permitindo assim apresentar um estudo interdisciplinar desta ombala.
Por ser objecto de investigação (Ombala Kandumbu), achamos por bem fazer uma visita a esta ombala no dia 03 de Junho de 2017 para recolhermos dados que nos permitam argumentar com conhecimento a organização desta ombala, cuja importância torna-se visível na medida em que pretendemos valorizar e apresentar a nossa cultura tradicional antes da era colonial, bem como a organização sociopolítica que apresentava e por outro lado permitir com que a sociedade huambuense, angolana, africana e quiçá do mundo inteiro conheça a História do Monumento Histórico das Pedras de Kandumbu.
Assim, com esta temática pretendemos localizar e compreender a organização sociopolítica que este reino apresentava antes da invasão e da ocupação colonial. Mas também explicar os requisitos que devem ser levados ao visitar a ombala e conhecer alguns sinais que simbolizam os rituais do poder político, administrativo, judiciária e tradicional, e todo o valor cultural que ali se encontra para permitir que aumentemos o turismo nesta parte da Província do Huambo e desta forma contribuir directamente para o crescimento e desenvolvimento da economia local para o cumprimento da diversificação da economia no qual o governo angolano tem apostado nos últimos anos para se desfazer da dependência do petróleo.





2.      A Visita

Estas pedras localizam-se a 22 km da cidade do Huambo e cerca de 15 km da sede do Município da Chicala TCholoanga. No âmbito das descrições das rochas, refere-se de um monolítico granítico com fendas e grutas onde foram enterrados os crânios de três (3) soberanos desta ombala. Durante o ano de 1902, este espaço foi palco de várias lutas, entre os habitantes nativos (os nativos foram liderados por Ndala Kandumbu-o rei da ombala) e os portugueses (os portugueses, foram liderados por Joaquim Teixeira Motinho - Governador de Benguela)[1].
Para visitar este monumento, alguns requisitos são necessários e desta forma cumprir com o Direito Consuetudinário.

No entanto para chegar a este local é necessário a permissão do actual rei Casimiro Pakissi[2], ou representado pelo seu adjunto. A mesma actividade deve ser apresentada pelo adjunto do Rei na língua Nacional Umbundu e traduzido em Português por uma Entidade académica na pessoa do Professor que acompanha a caravana para uma interpretação linguística clara e concisa.
Para que se tenha todas as informações deste reino é necessário cumprir com os seguintes requisitos:
Na entrada 50 metros de distância tem uma pedra que era o assento do sentinela[3], encontra-se um recinto com uma grande sombra histórica, que servia para acomodar os visitantes enquanto esperavam pela ordem do rei para autorizar a entrada, cujo nome deste recinto chama-se «UTALA WAHUVI». Antes da partida para entrada, é necessário passar por uma purificação na mão direita com óleo de palma e «limbwi» de seguida oferta simbólica de 50 kwanzas servindo de cumprimentos a autoridades locais.
Para além disso, é necessário levar alguns bens simbólicos:
·         Uma Grade de Cerveja;
·         Uma Grade de Gasosa;
·         Um garrafão de vinho;
·         Uma Garrafa de Whisky;
·         Uma Galinha;
·         Cigarros;
·         Amorfos;
·         Um valor simbólico no Envelope.
Após esse cumprimento da tradição, é permitido a entrada e a investigação histórica.
1-      Dai segue-se em fileira para entrada da primeira «mulembeira» onde existe uma pedra como assento do sentinela do rei, como guarda ou informante de qualquer visita benéfica ou com outros objectivos. Em caso de alguém chegar, não poderia contactar as autoridades sem primeiro prestar depoimento de sua visita à sentinela, dai o rei analisa, se essa visita é boa ou não, se tem bons objectivos para autorizar a entrada ou não.

2-      Pouco depois da entrada estão plantadas três «mulembeiras», uma representa o jango do Regedor (Soma Inene) e outra para o seu adjunto (Epalanga) e a terceira para o jango de sanções ou multas onde servia para abater os animais que eram indemnizados aos lesados, estes animais poderiam ser: Bois, porcos, cabritos ou então galinhas. Essa indemnização era atribuída conforme diz os princípios tradicionais deste reino.
3-       No segundo recinto (OCILA CAVALI), encontra-se várias pedras, cada uma simboliza crânio de cada rei que ali passou.
Aponta-se seis reis (6) desde a sua fundação que são os seguinte:
          1            Rei Nondolo
          2            Rei Ndala Kandumbu
          3            Rei Jaime Santos (colaborador dos brancos sem poder)
          4            Rei Kacikwalula
          5            Rei Yulembi
          6            Rei Semente

Tem-se como fundador do reino o Rei Nondolo, antes da sua morte nomeia seu sobrinho Ndala Kandumbu[4], que governou com muita força e desenvolveu altas técnicas militar como arma de fogo (kanyangulu) cuja pólvora vinha das raízes. Com a pressão do colonialismo português, altas guerras foram sucedendo, o que obrigou inventar arma com alta capacidade de destruição massiva, e a sua experiência foi feita numa pedra. Esta experiência foi boa no entender dos populares da região porque criou danos na pedra, o que se considerou um teste positivo.
Para isso foi necessário blindar os soldados com alguns medicamentos para evitar mortes, porque o português já trazia armas mais sofisticadas como «mauser». Após a fabricação de armas, criavam um reservatório que poderíamos chamar de paiol, sempre que surgisse uma guerra era fácil distribuir as armas.

Se o primeiro rei foi Nondolo, porquê que a Pedra e a Ombala chamam-se Kandumbu? Ou seja porquê receberam o nome do segundo soberano e não do primeiro?
Destaca-se o soberano Ndala Kandumbu, porque é com ele que aconteceu a luta de resistência na penetração do colonialismo português e os massacres de militares de membros do seu reino até a vitória dos brancos no dia 19 de Setembro de 1948.
Só com Kacikwalula foi possível recolher todos os corpos e merecer o seu sepultamento, homenageando assim a vitória da caravana do Sul.

3.      A Penetração Colonial


Em linhas gerais, a África foi confiscada dos africanos em pleno século XIX, arquitetado pelos colonialistas na Conferência de Berlim (15 de Novembro de 1884-26 de Fevereiro de 1885) após o fracasso da conferência de Bruxelas (em Novembro de 1876) por causa da abolição do tráfico de escravos, da dinâmica da revolução industrial e da perda das principais colónias europeias[5].
Foi neste contexto da invasão e ocupação do interior para atender os objectivos económicos da velha Europa que depois de se ter alcançado e fundado a cidade de Loanda (Luanda-1575), e a cidade de Benguela (1617) na costa angolana, levou-se a cabo a invasão do interior de acordo com as regras estipuladas na Conferência de Berlim e por este facto os portugueses atingiram a cidade do Huambo (Nova Lisboa) por Norton de Matos em 1912 até os colonialistas atingirem a Ombala de Kandumbu.
Imagem nº 1-A pedra Kandumbu, o centro da ombala.

Quanto a invasão à ombala, os espiões do rei notaram uma movimentação de algumas grandes carroças a passar próximo da ombala, isso aconteceu primeira, segunda e a terceira vez o rei decide mandar as tropas para apanhá-los com os seus bens, dai só foi possível prender a mulher e quatro bois e o homem escapou, essa senhora foi mantida em cativeiro escuro durante um tempo. O seu marido que havia escapado comunicou a Benguela e pediu reforço para atacar o reino Kandumbu e salvar a prisioneira.
Os brancos ficaram todos apavorados com a situação, decidem instalar-se na zona hoje chamada “Heróis de Kangamba”, fazendo assim um quartel de base para atacar qualquer momento o Rei Kandumbu.
Um dia desse arrumaram-se para derrubar este reino e atacar mortalmente todos e salvarem aquela prisioneira, mas o rei tomou conta cedo da ameaça dos brancos, com a magia que possuía era fácil fazer uma manobra e derrotar os brancos, transformou aproximadamente 500m de distância em mar e os brancos não poderiam ver os seus inimigos mas sim os negros poderiam. Neste conflito os soldados com as suas armas conseguiram derrotar os brancos rapidamente, onde se registou «999» mortos, restando assim apenas um para contar aos outros o sucedido e informar que aquele reino era muito forte.
Os brancos pediram novamente reforço. Por azar do rei seu sobrinho ou adjunto com o nome de «SEVIMBI[6]» (Epalanga Lyasoma) que planificou seguir os rastos dos brancos para sanear o seu quartel e o rei admitiu que se fizesse. Posto lá o indivíduo entrega-se afirmando aos brancos que ele era o detentor de todas as magias e segredos do reino e que com ele seria possível acabar com o rei.
Os brancos depositaram a confiança e pondo-o caminho juntos os soldados portugueses. O Reis notando a penetração por todos os lados decide fazer a magia mas infelizmente o sobrinho desvendava todas manobras mágicas, o que levou fogo tremendo nestas pedras, morrendo muita gente, o rei se sentindo derrotado e traído decide transformar-se num pássaro cujo nome em umbundu é conhecido de «EPUMUMU» voa saltando para uma pedra, a uma distância aproximadamente 700m, com dor em ver a morte do seu povo decide voltar e pousou na pedra mais alta chorando de dor da traição.
Os brancos forçam o “SEVIMBI” para que mostrasse o rei e ser executado e este virou os olhos dizendo: “Aquele pássaro que aparece no meio das pedras é o rei, isso é simplesmente magia que fez com que se transformasse em pássaro, podem atirar nele e verão o que pode surgir”, e os brancos atiraram alguns tiros e viram o rei caído. Daí, o reino foi vencido e os portugueses construíram um monumento histórico nessa pedra que homenageia a vitória da Caravana do Sul como se apresenta na imagem nº 2.
Imagem nº 2- O pilar branco foi construído depois dos portugueses conquistarem a ombala.


Depois de algum tempo os brancos ao analisar a traição de «Sevimbi»” chegaram a concluir que um dia ele poderia também os trair então o executaram e colocaram um rei dos seus interesses com o nome de “Jaime Santo”. Quando este rei morreu substitui o Rei Kacikwaluala que conseguiu sepultar os corpos que ali haviam morrido na guerra. Continuando assim até ao reinado de rei Semente.












4.      Considerações Finais


Concluindo, as fontes que nos restam sobre esse reinado são as bibliotecas vivas e os vestígios que esses grandes homens deixaram, como os fosses que estão bem conservados nos seus “Acocotos”.
Ainda, a linhagem de reinado continua até os dias de hoje, que assim completa dez reis desde a fundação, nomeadamente:
·         Rei Nondolo
·         Ndala Kandumbu
·         Jame Santos
·         Kacikwalula
·         Yulemby
·         Semente
Sobas Modernos
·         Soba Fiel Cahala
·         Abel Kafuloma
·         Martinho Cawema
·         Casimiro Pakissi
O actual soba é o Casimiro Pakissi (Rei de Ndala Kandumbu). A visita a esta ombala (Acocotos), obedece as ordens internas que apresentamos nas páginas anteriores. Outrossim, só se pode ver os crânios uma vez por ano consagrado por uma festa que acontece a 15 de Setembro em todos os anos, e assim os reis são apresentados ao público.









 


Bibliografia


Ki-Zerbo, J. (2002), História da África Negra, 3ª Edição,V II, Paris, Publicações Europa-America, pp.67-76.
Jornal de Angola, Domingo, 13 de Dezembro de 2015.
Fontes Orais
v  Narrado pelo Rei Adjunto actual (2017);
v  Na presença do Rei Casimiro Pakissi (2017);
v  Traduzido em Português pelo: Msc. Alberto Sehululu (historiador do, ISCED-Huambo);
v  Acompanhado pelo: Professor João Sicato Kandjo (historiador);
v  Editado por: Adolfo Sawando Chimuco (Estudante do 3º Ano de História do ISCED-Huambo).




[1]   Jornal de Angola, Domingo, 13 de Dezembro de 2015.
[2] Quando visitamos a Ombala em 2017, e voltei a fazê-lo de forma particular em 2018, este é precisamente a figura máxima no âmbito da política e da liderança do Reino.
É ele que autoriza que a visita seja feita, mas em colaboração com o seu conselho principal. E nós tivemos a sorte de sermos autorizados e por conseguinte fizemos a investigação.
[3] Equivalente a um polícia, guarda que rapidamente dá a conhecer ao rei quando se aperceber de um elemento estranho na comunidade. Sendo que este é interrompido logo na entrada pelo sentinela.
[4] Quando o rei nomeia o seu sobrinho, significa que o sistema de sucessão é matrilinear e nunca é demais lembrarmo-nos dos argumento de Al-Bakri, citado por Kizerbo (1972), ao ter considerado que nas sociedades negro-africanas, o sistema de sucessão regra geral era matrilinear, isto para manter o sangue real no poder, diz-nos ele: se, se tem a certeza de se ser irmão da sua irmã, nem sempre se tem a certeza de se ser pai do seu próprio filho, por outro lado porque este sistema está ligado a cultura da prática da agricultura e da sedentarização da época.
[5] Consultar: Kizerbo, J. (2002), História da África Negra, 3ª Edição,V II, Paris, Publicações Europa-America, pp.67-76.
[6]  Durante o depoimento, conseguimos perceber que até nos dias de hoje, os residentes da ombala pensam e configuram a imagem de Sevimbi como um traidor usado pelos portugueses e também acabou mal porque foi morto pelos mesmos.



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